cover
Tocando Agora:

Esvaziada e sob pressão de Trump, ONU enfrenta crise de credibilidade

Série especial sobre a ONU: organização tem 193 países mas poder de veto restrito a cinco garante protagonismo Entre cortes de financiamento, o desprezo de ...

Esvaziada e sob pressão de Trump, ONU enfrenta crise de credibilidade
Esvaziada e sob pressão de Trump, ONU enfrenta crise de credibilidade (Foto: Reprodução)

Série especial sobre a ONU: organização tem 193 países mas poder de veto restrito a cinco garante protagonismo Entre cortes de financiamento, o desprezo de seu principal contribuinte e uma grave crise do multilateralismo, o palco da Assembleia Geral da ONU estará montado pela 81ª vez a partir desta terça-feira, em Nova York. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Inoperância e paralisia figuram entre as críticas frequentes à atuação do organismo mundial composto por 193 países, agravadas pelos desdobramentos da guerra iniciada em fevereiro por Estados Unidos e Israel ao Irã. O presidente americano, Donald Trump, retorna ao púlpito da ONU para encarar uma plateia descrente em relação aos desmandos de seu governo para enfraquecê-la e desfazer alianças. Os EUA se retiraram de 31 entidades das Nações Unidas, após o presidente promover ataques sistemáticos ao seu funcionamento e tentar criar um mecanismo alternativo para substituir o organismo: o fracassado Conselho da Paz. Trump busca, contudo, o protagonismo com dois anúncios com potencial para ofuscar a Assembleia Geral: um acordo com a Dinamarca e a Groenlândia, a ser firmado em Nova York, e o primeiro encontro com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, após a invasão ao país e captura de Nicolás Maduro, em janeiro passado. A despeito do descaso demonstrado em anos anteriores, seu discurso, logo após o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atrairá audiência. A ameaça com tarifas econômicas e a irritação com aliados que se recusaram a ajudar os EUA na empreitada contra o Irã, contudo, já não produzem o efeito planejado. Trump discursa na ONU em 23 de setembro de 2025 Shannon Stapleton/Reuters Parceiros tradicionais aprenderam a lidar com a retórica intimidatória do presidente. O Canadá, por exemplo, buscou a aliança com a União Europeia: fugiu do rótulo de 51º estado dos EUA, conforme proclamava Trump, para aceitar a oferta de primeiro membro associado do bloco europeu, feita pela comissária Ursula von der Leyen. É como se a atuação inconstante de Trump empurrasse seus aliados na direção de outros grupos. Em artigo publicado no domingo no jornal britânico “Financial Times”, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, os presidentes Lula e William Ruto, do Quênia, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, anunciaram uma nova iniciativa diplomática, batizada de Parceiros pelo Multilateralismo (P4M), com o objetivo de aproximar países dispostos a trabalhar na reforma da ONU e de outras instituições internacionais. O texto alerta que um sistema multilateral que não reflita as realidades atuais não resistirá ao teste do tempo e prevê a necessidade de renová-lo, mantendo o compromisso com os princípios básicos da Carta da ONU. “São princípios que não são negociáveis, como a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, a proibição da ameaça ou do uso da força, o direito internacional humanitário, o direito sustentável, os direitos humanos e as liberdades fundamentais”, afirmam Costa, Lula, Ruto e Carney. A crise existencial da ONU é acentuada pela drástica situação financeira que afeta a organização, sobretudo pela falta de pagamento da contribuição obrigatória dos EUA para o seu orçamento. Levou o secretário-geral, António Guterres, a alertar duas vezes este ano sobre o risco iminente de colapso financeiro. A onda de cortes reduziu o número de funcionários em 19% e afetou as missões de paz, enxugando agências humanitárias e missões de paz, obrigando 13 mil militares a serem repatriados. O governo Trump pagou esta semana US$ 725 milhões às Nações Unidas, para reduzir a dívida e assegurar a manutenção de seu direito a voto na Assembleia Geral. Mas, segundo o porta-voz da ONU, Farhan Haq, os EUA ainda devem US$ 1,312 bilhão ao orçamento. E, por fim, a Assembleia Geral deste ano será dominada também pela sucessão de Guterres, que termina o mandato de dez anos em dezembro. A falta de consenso sobre o futuro secretário-geral em três votações informais traduz a inércia do organismo. A aprovação de um nome requer o aval de Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin, entre os cinco líderes que detêm o poder de veto no Conselho de Segurança, mas, até agora, nenhum nome emergiu como franco favorito.